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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ENSONHAR - Nuvem-que-Passa




ENSONHAR


Nuvem-que-Passa


Quando abandonamos o sonhar que nossa essëncia traz em si para sonharmos sonhos impostos por outros, estamos no caminho dos pesadelos, pois, creio que pesadelo maior não há que vagar ausente de si, perdido nesta vastidão sem limites, onde podemos nos tornar presa fácil de seres muito mais antigos e complexos. Sonhamos o mundo com a força de nossa intenção.

Os seres humanos vieram de mundos de sonhos e passaram por muitos mundos, muitos sonhos, até chegar a este mundo, com o qual sonhamos agora. Estes momento mágico, único, que nunca vai se repetir, efëmero é nossa participação neste vasto sonhar da ETERNIDADE. Somos o sonhado, mas podemos acordar e nos tornarmos o sonhador. Uma das descobertas mais desconcertantes da prãtica da Arte do Sonhar é descobrir que também somos um sonho. Assim como sonhamos com o sonhador o sonhador sonha conosco. Este é um dos pontos fundamentais do Xamanismo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

SOBRE ENSONHAR - Carlos Castañeda

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— Vou ensinar a você o primeiro passo para o poder — disse Dom Juan, iniciando sua instrução sobre a arte de sonhar. — Vou ensinar como estabelecer o sonhar.

— O que significa estabelecer o sonhar?

Significa ter um comando preciso e prático sobre a situa­ção geral de um sonho. Por exemplo, você pode sonhar que está em sua sala de aula. Estabelecer o sonhar significa que você não deixa o sonho virar outra coisa. Você não salta da sala de aula para as montanhas, por exemplo. Em outras palavras, você controla a visão da sala de aula, e não deixa que ela desapareça enquanto você quiser.

— Mas é possível fazer isso?

— Claro que é possível. Esse controle não é diferente do controle que temos sobre qualquer situação em nossas vidas cotidianas. Os feiticeiros estão acostumados com ele e conse­guem-no sempre que desejem ou precisem. Para se acostumar com ele você deve começar a fazer uma coisa bastante simples. Esta noite, em seus sonhos, você deve olhar para as mãos.

Não falamos muito mais sobre isso na consciência de nosso mundo cotidiano. Em minhas recordações das experiências na segunda atenção, entretanto, descobri que tivemos uma troca mais do que extensiva. Por exemplo, eu expressei meus sentimentos sobre o absurdo da tarefa, e Dom Juan sugeriu que eu deveria encará-la em termos de uma busca divertida, em vez de solene e mórbida.

— Seja tão pesado quanto quiser ao falarmos sobre sonhar disse ele. — As explicações sempre pedem pensamentos profundos. Mas quando estiver sonhando, seja tão leve quanto uma pena. Sonhar tem de ser feito com integridade e seriedade, mas no meio de risos e com a confiança de quem não tem qualquer preocupação. Somente nessas condições nossos sonhos podem se transformar no sonhar.

Dom Juan me assegurou que havia escolhido aleatoriamente minhas mãos para que eu olhasse nos sonhos, e que seria válido olhar para qualquer outra coisa. O objetivo do exercício não era descobrir uma coisa específica, mas empenhar minha atenção sonhadora.

Dom Juan descreveu a atenção sonhadora como o controle que adquirimos sobre nossos sonhos depois de fixar o ponto de aglutinação em qualquer posicionamento novo para o qual ele tenha se deslocado durante os sonhos. Em termos mais gerais, ele chamava a atenção sonhadora de uma faceta incompreensível da consciência, que existe por si, esperando o momento de atraí-la, um momento em que lhe daremos um objetivo, uma faculdade oculta que todos nós temos em reserva, mas que nunca temos a oportunidade de usar.

As primeiras tentativas de procurar minhas mãos no sonho foram um fiasco. Depois de meses de esforços mal sucedidos desisti e reclamei de novo com Dom Juan sobre o absurdo dessa tarefa.

— Existem sete portões — ele disse em resposta. — E os sonhadores precisam abrir todos eles, um de cada vez. Você está diante do primeiro portão que precisa ser aberto caso deseje sonhar.

— Por que você não me disse isso antes?

— Teria sido inútil falar sobre os portões do sonhar antes de você bater de cabeça contra o primeiro. Agora você sabe que há um obstáculo e que precisa superá-lo.

Dom Juan explicou que há entradas e saídas no fluxo de energia do universo, e que no caso específico do sonhar há sete entradas experimentadas como obstáculos, que os feiticeiros cha­mam de sete portões do sonhar.

— O primeiro portão é o limiar que precisamos atravessar tornando-nos conscientes de uma sensação particular antes do sono profundo. Uma sensação como um peso agradável que não nos deixa abrir os olhos.

Chegamos a esse portão no instante em que nos conscientizamos de que estamos caindo no sono, suspen­sos na escuridão e na sensação de peso.

— Como me conscientizo de que estou caindo no sono? Existem etapas a seguir?

— Não. Não existem etapas a seguir. Só precisamos intentar que temos consciência de estar caindo no sono.

— Mas, como se intenta que estamos conscientes disso?

— É muito difícil se falar a respeito do intento. Eu, ou qualquer outra pessoa, pareceria idiota tentando explicar. Pense nisso quando ouvir o que tenho a dizerem seguida: simplesmente intentando, os feiticeiros intentam alguma coisa que os coloca no intento.

— Isso não significa nada, Dom Juan.

— Preste muita atenção. Algum dia vai ser sua vez de expli­car. A afirmação parece sem sentido porque você não a está colocando no contexto adequado. Como qualquer pessoa racional, você pensa que compreender está unicamente no âmbito da razão, de sua mente.

"Para os feiticeiros, como a afirmação que fiz tem a ver com o intento e com intentar, compreendê-la está no âmbito da energia. Os feiticeiros acreditam que, se intentarmos essa afirmação para o corpo energético, o corpo energético irá entendê-la em termos inteiramente diferentes dos termos da mente. O truque é buscar o corpo energético. Para isso você precisa de energia.

— Em que termos o corpo energético entenderia essa afirma­ção, Dom Juan?

— Em termos de um sentimento corporal, o que é difícil de descrever. Você precisa experimentar, para saber o que estou dizendo.

(...)


— Onde nós estávamos, Dom Juan? perguntei. — Foi um sonho? Um estado hipnótico?

— Não foi um sonho — ele respondeu. — Foi o sonhar. Ajudei-o a alcançar a segunda atenção, para que você compreen­desse o intento, não como um tema para o seu raciocínio, mas para seu corpo energético.
"Nesse ponto você ainda não pode compreender a importân­cia disso tudo, não só porque não tem energia suficiente, mas também porque não está intentando nada. Se estivesse, seu corpo energético compreenderia de imediato que o único modo de intentar é concentrando seu intento naquilo que você deseja inten­tar. Dessa vez concentrei-o, para você, em alcançar seu corpo energético.

— O objetivo de sonhar é intentar o corpo energético? — perguntei, subitamente com o poder de um raciocínio estranho.

— Pode-se colocar desse modo — ele disse. — Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.

Aceite o desafio de intentar — prosseguiu ele. — Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em con­vencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.

— Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?

— Quando você ouve que precisa se convencer, imediata­mente se torna mais racional. Como pode se convencer de que é um sonhador quando sabe que não é? Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.

— Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?

— Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.

Dom Juan acrescentou num tom jocoso que ele não tinha energia suficiente para me fazer outro empréstimo para o intento, e que a coisa a fazer era buscar sozinho meu corpo energético. Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da Antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.

Depois de dizer isso ele praticamente me expulsou de sua casa, ordenando que eu não voltasse até ter intentado o primeiro portão do sonhar.

Voltei para casa. E todas as noites, durante meses, fui dormir intentando com toda a força me conscientizar de que estava caindo no sono e ver minhas mãos nos sonhos. A outra parte da tarefa, convencer-me de que era um sonhador e que havia alcançado o corpo energético, era totalmente impossível.

Então, numa tarde enquanto cochilava, sonhei que estava olhando para minhas mãos. O choque bastou para me acordar. Aquele se mostrou um sonho especial que não pôde ser repetido. Passaram-se semanas e fui incapaz de me conscientizar de que estava caindo no sono ou de encontrar minhas mãos. Comecei a perceber, entretanto, que estava tendo em meus sonhos um vago sentimento de algo que eu deveria ter feito, mas que não conseguia recordar o que fosse. Esse sentimento ficou tão forte a ponto de me acordar constantemente durante a noite.

Quando contei a Dom Juan sobre minhas tentativas fúteis de atravessar o primeiro portão do sonhar, ele me deu algumas diretrizes.

— Pedir que um sonhador encontre um determinado item em seus sonhos é um subterfúgio — disse ele. — A verdadeira questão é conscientizar-se de que está caindo no sono. E, por mais estranho que possa parecer, isso não acontece ordenando-se a ficar cons­ciente de estar caindo no sono, e sim mantendo a visão da coisa que se está procurando no sono.

Disse-me que os sonhadores olham rápida e deliberadamente tudo que está no sonho. Se concentram sua atenção em algo específico, é apenas como um ponto de partida. A partir dali, os sonhadores passam a olhar outros itens do conteúdo do sonho, voltando ao ponto de partida quantas vezes for possível.

Depois de grande esforço realmente encontrei mãos em meu sonho, mas nunca eram minhas. Eram mãos que apenas pareciam me pertencer; mãos que mudavam de forma, tornando-se às vezes quase um pesadelo. Mas o resto do conteúdo dos sonhos estava sempre agradavelmente fixo. Eu quase podia sustentar a visão de qualquer coisa em que focalizasse minha atenção.

A coisa prosseguiu assim durante quatro meses, até um dia em que minha capacidade de sonhar mudou aparentemente por si própria. Eu não tinha feito nada de especial, apesar da determina­ção constante de me conscientizar de que estava caindo no sono e de encontrar minhas mãos.
Sonhei que estava visitando a cidade onde nasci. Não que a cidade com a qual sonhava se parecesse com aquela onde nasci, mas de algum modo eu tinha a convicção de que era. Tudo começou como um sonho comum, porém bastante vívido. Então a luz do sonho mudou. As imagens tornaram-se mais nítidas. A rua onde eu andava tornou-se notavelmente mais real do que um momento antes. Meus pés começaram a doer. Pude sentir que as coisas eram absurdamente duras. Por exemplo, ao bater contra uma porta, não somente experimentei a dor no joelho que bateu como também fiquei furioso por minha falta de jeito.

Caminhei realisticamente por aquela cidade até ficar exausto. Vi tudo que poderia ver se fosse um turista andando pelas ruas de uma cidade. E não havia qualquer diferença entre aquela cami­nhada onírica e as caminhadas que eu dava numa cidade que visitava pela primeira vez.

— Acho que você foi um pouquinho longe demais — Dom Juan disse depois de ouvir meu relato. — Só era necessária a sua consciência de estar caindo no sono. O que você fez é equivalente a derrubar uma parede só para esmagar um mosquito pousado nela.

— Quer dizer, Dom Juan, que eu fiz besteira?

— Não. Mas aparentemente você está tentando repetir algo que fez antes. Quando fiz seu ponto de aglutinação mudar, e nós terminamos naquela cidade misteriosa, você não estava dormindo. Estava sonhando, mas não dormindo. Isso quer dizer que seu ponto de aglutinação não alcançou aquele posicionamento através de um sonho normal. Eu forcei-o a se deslocar.

Você certamente pode alcançar a mesma posição através de um sonho, mas eu não aconselharia isso, por enquanto.

— É perigoso?

— E como! Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.

— Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?

— A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonha­dora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.

Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.

A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.

— O que são esses batedores?

— Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.

— Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.

— Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente — ou o cérebro — capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.

Parou, obviamente para dar à minha mente tempo de absorver o que dizia.

— Os feiticeiros têm consciência dessas correntes de energia estranha — continuou. — Eles percebem-nas e tentam isolá-las dos itens normais de seus sonhos.

— Por que eles as isolam, Dom Juan?

— Porque elas vêm de outras esferas. Se as seguirmos até suas fontes, elas servirão como guias para áreas de um mistério tão grande que os feiticeiros estremecem à simples menção dessa possibilidade.

— Como os feiticeiros as isolam dos itens normais dos seus sonhos?

— Através do exercício e do controle de sua atenção sonha­dora. Num momento, nossa atenção sonhadora as descobre entre os itens de um sonho, concentra-se nelas e então todo o sonho se desmorona, deixando apenas a energia estranha.

Dom Juan se recusou a levar o tema adiante. Voltou a discutir minha experiência e disse que, no todo, tinha de ver meu sonho como minha primeira tentativa genuína, e que isso significava que eu conseguira alcançar o primeiro portão do sonhar.

Em outra discussão, numa outra época, ele trouxe abrupta­mente o assunto de volta. Disse:

— Vou repetir o que você deve fazer em seu sonho para atravessar o primeiro portão do sonhar. Primeiro deve focalizar sua vista em qualquer coisa que você escolha como ponto de partida. Em seguida vire-se para outros itens e dê olhadas breves. Focalize seu olhar no máximo de coisas que puder. Lembre-sede que, se você olhar rapidamente, as imagens não mudam. Em seguida volte para o item original, o primeiro para o qual você olhou.

— O que significa passar o primeiro portão do sonhar?

— Alcançamos o primeiro portão do sonhar ficando cons­cientes de que estamos caindo no sono ou tendo, como você teve, um sonho gigantescamente real. Depois de termos alcançado o portão, devemos atravessá-lo podendo manter a visão de qualquer item do sonho.

— Eu quase posso olhar fixo para os itens de meus sonhos, mas eles se dissipam muito rápido.

— É precisamente isso que estou tentando dizer. Para com­pensar a qualidade evanescente dos sonhos, os feiticeiros inven­taram o uso do item ponto de partida. Toda vez que você o isola e olha para ele, recebe um jorro de energia, de modo que no princípio não olhe muitas coisas em seus sonhos. Quatro itens já bastam. Mais tarde você pode alargar o alcance até poder abarcar tudo que quiser, mas assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para o item ponto de partida e comece tudo de novo.

— Você acredita que eu realmente cheguei ao primeiro por­tão do sonhar Dom Juan?

— Chegou, e isso já é muito. Você vai descobrir, enquanto prossegue, como vai ser fácil sonhar agora.

Achei que Dom Juan estava exagerando ou me dando incen­tivo. Mas ele me assegurou que não.

— A coisa mais espantosa que acontece com os sonhadores disse ele — é que, ao chegar ao primeiro portão, também chegam ao corpo energético.

— O que, exatamente, e o corpo energético?

— É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.

— Mas o corpo físico não é feito também de energia?

— Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.

— Como o que, por exemplo?

— Como se transportar num instante até os confins do uni­verso. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.

Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano, é independente. Tem sua própria esfera.

— O que é essa esfera, Dom Juan?

— Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como perce­bemos comumente o mundo.
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Fonte: A Arte do Sonhar, Carlos Castaneda
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domingo, 25 de novembro de 2007

GLAUCO APRENDEU A SONHAR COM O LIVRO DE CASTAÑEDA, A ERVA DO DIABO

Conhecido como cartunista de humor, o criador do Geraldão, da Dona Marta, do Zé do Apocalipse e do Casal Neuras aprendeu a sonhar com Castañeda e tornou-se um líder espiritual do Santo Daime

"Passei a sair do corpo e a comprovar que estive em certos lugares" Em 1975, 18 anos, Glauco foi morar em Ribeirão e logo deu as caras no jornal editado por José Hamilton Ribeiro. "A cidade tinha uma safra de feras - o Sérgio de Souza, depois do Bondinho, também foi para lá montar um jornal alternativo." (Para quem não sabe, José Hamilton Ribeiro fez a cobertura, pela Realidade, da Guerra do Vietnã. Sérgio de Souza, o Serjão, foi seu companheiro de Realidade e é o criador da revista Caros Amigos.) Zé Hamilton Ribeiro lhe ofereceu emprego. "Foi meu primeiro padrinho", diz Glauco, que já tinha dois personagens, Rei Magro e Dragolino. "Eles passavam o dia todo queimando um", lembra. Zé Hamilton também se recorda. "Percebi que estava diante de alguém especial - o artista capta sinais que a gente, comum, não percebe. Sua presença física já era de oposição." Sobre o Glauco e o amigo Sérgio de Souza, diz: "Bom mesmo são as pessoas que conseguem fundar sua própria igreja - não sobre pilares de ouro, pois essas podem ser roubadas, mas sobre os pilares do espírito".Outros padrinhos se seguiram. O cartunista Angeli, que editava o Vira Lata no Folhetim dos tempos do Tarso de Castro, começou a publicar seu trabalho. O Henfil, sua maior influência desde que conheceu o Pasquim, o hospedou durante nove meses. "Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão - o trabalho dele era um avanço muito grande."Na sombra do cartunista, contudo, nascia o sonhador. Glauco aprendeu a sonhar consciente com o livro A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda. "Através das instruções dele passei a sair do corpo e a comprovar que estive em certos lugares - perdi muito tempo com isso. Eu ia lá na frente da redação do jornal, sonhando, ia lá e decorava o número do poste, numa plaquinha. Acordava e ia correndo ver - estava lá! Passei uma época obcecado em convencer minha razão."Foi quando sonhou com o Padrinho Eduardo, que ainda não conhecia. No sonho um índio dizia, dirigindo-se a uma multidão diante dos dois - olha, é ele quem vai levar vocês. Acordou achando que tinha sonhado com Dom Juan Matus, o feiticeiro yaqui de quem Castañeda foi aprendiz. "Parecia um inca - um narigão, baixinho, atarracadinho. nunca esqueci aquele véinho." Foi a sinalização do caminho para o Santo Daime.

http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/005/04.shtml

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Ensonhar - Carlos Castaneda



Devemos saber o que o mundo tal como o percebemos é um acordo .Um exemplo de não-fazer amarrar os sapatos de forma diferente . O ensonhador, através dos ensinamentos da feitiçaria, é um guerreiro que vê sua própria vida e a si mesmo como alguma coisa indescritível, indefinível e indeterminada. Ele não tem limitação. Não tem forma. Ele agarra qualquer coisa que lhe venha de encontro igualmente, como um desafio, e nunca perde sua imparcialidade mesmo que seja terrivelmente humilhado. Uma das coisas mais importantes a fazer para um guerreiro é ter um Álbum de Momentos Sublimes. Saiam da mente do predador. Nós somos repetitivos. Onde está nosso senso de orgulho? Nós temos que examinar tudo, cortar nossas rotinas através da dissonância cognitiva para nos transformarmos em "bruxos" ou videntes . Nós podemos ver energia tal como flui, por que motivo permitimos que a mente do predador nos impeça? O Ensonhador é capaz de usar seus sonhos como um alçapão ou como um trampolim que o faz mergulhar no infinito. Mas nós temos gasto nossos sonhos unicamente em caminhos analíticos, psicológicos ou científicos. Ensonhar como um guerreiro é ensonhar como alguém que assume a responsabilidade de que está indo morrer . O Ensonhar é preciso. Alguma coisa é arrastada no campo da luminosidade. O ponto de encaixe é deslocado. Fibras de energia são disparadas em milhares de direções. Se o ponto for deslocado nos movemos para um mundo inteiramente diferente. Ensonhar é a arte de manter o ponto de encaixe em uma nova posição. Se nós tivessemos a oportunidade, todos nós poderíamos nos tornar ensonhadores de primeira classe. A promoção do deslocamento de nosso ponto de encaixe é espantosamente maior no ensonho. Nossa mente é quem fornece ordem nestas experiências. Quando estes ensonhos tornam-se opressores e com imagens demoníacas, isto é ditado pelo nosso caminho de antropomorfização da experiência do ensonhar. Se nos agarramos aos ensonhos como uma atividade formal, o demoníaco desaparece. O difícil é disciplinar a nós mesmos de maneira que nada do que aconteça no ensonho seja desfeito ou provoque em nós uma reação tal que nos faça perder a experiência . Os passos no ensonhar: 1. Tornar-se ciente que você se entregou ao sono. Antes de ir para dormir dizer: `Eu sou um ensonhador'. Este é um estado que afirma o seu intento. Isto não significa ficar preocupado em ensonhar ou não, a nossa mente não está habituada a conhecer a diferença. Isto não é mentir para você mesmo Quando permanecemos em questões lineares os nossos pensamentos é que são mentiras, isso não é nada novo, pois mentimos a nós mesmos o tempo todo . Assim intentem ensonhar partindo do ponto de vista de que nós estamos indo para a morte, como se isto fosse uma questão de vida ou morte . Ou você quer salvar a sua vida para a senilidade? Estás esperando em um restaurante que alguém lhes diga que lhe quer, que lhe ama ? O que você tem feito ? Dom Juan queria fazer esta questão para mim repetidamente. Isto precisava ser repetido incessantemente porque eu era um estúpido. Este não é o melhor dos mundos possíveis. Alguma coisa está presa em nossas costas devido ao nosso modo de ver. Do ponto de vista do guerreiro que está indo morrer tornamo-nos sabedores que o mundo nunca será o mesmo. Isto é inacreditável. O guerreiro ensonhador vê o batedor inorgânico em seus ensonhos. Eles são batedores de mundos inconcebíveis. Eles usam a consciência como um mar. Nós podemos ir a qualquer lugar se tivermos energia. Se nós nos livrarmos de nossa importância própria conseguimos a energia para tal . Um guerreiro dá um pulo de incalculável extensão porque ele precisa disso para navegar pelo infinito . Meu destino é errar pelo infinito. Nós somos viajantes, viajar é o nosso destino. Ao aceitar a responsabilidade de sua morte o guerreiro obtém um inacreditável impulso. Ele pode colocar um fim à sua importância própria e mover-se para um outro nível. Já não tem que curvar-se diante de nada, nem exige que nada curve-se diante de si . Depois de descobrir o batedor em seus ensonhos você pode parar o ensonho e perguntar a ele de onde ele veio e segui-lo até lá. O batedor é compelido a levar nossa consciência atenta para outros mundos Mundos estupendos, um universo paralelo. O ensonhador torna-se então um explorador, um batedor de si mesmo. O universo paralelo está vivo, ele é o mundo da consciência . Os seres inorgânicos são professores de um universo feminino que está a procura da energia masculina. Mulheres são réplicas de seres inorgânicos na Terra. A batalha está em outro mundo e nós entraremos neste universo gostemos ou não . Isto é inevitável. Os feiticeiros são pragmáticos. Perguntam-se : O que é exatamente esta batalha que acontece em outro mundo? Porquê esperar até você morrer? Faça isto agora enquanto você está jovem e vigoroso. Pare de estar tão envolvido com sua importância própria, de pensar em si e no que precisa , até estar velho demais para fazer algo, até que somente uma coisa nos possa ser dita: "precisa de alguém para cuidar de você". Seja sabedor agora. Este é o momento e ensonhar é o caminho. O ensonhador, tendo economizado suficiente energia obterá o balanço de sua vida quando entrar no outro mundo. Isto é inconcebível. O que é real para nós? Não o que nossos pais disseram. Nós somos outra coisa. Há sete estágios do ensonhar. O primeiro é estar consciente de que você está caindo no sono.Quando se consegue isso permanecemos conscientes durante o estado de sono . Então podemos manter esse estado se não olhamos nada de forma fixa . Uma vez que você começa a despertar em seus ensonhos você começará a acumular mais energia. Você estará forte no próximo dia. Torne-se cônscio em seus ensonhos, este é o primeiro estágio. Se você insistir e pôr o intento a sua energia irá puxá-lo. Deixe isto acontecer. O puxar do intento quebrará os parâmetros históricos da percepção. Se você recapitular sua vida seriamente você ganhará bastante energia. Somente como guerreiros podemos nos dar conta do que somos . No primeiro estágio nós examinamos tudo, cada elemento em nossos ensonhos. Nós começamos tornando-nos cônscios de que estamos caindo no sono. Mas isto não é a meta da técnica. Isto é somente para enganar a mente. a técnica real é para tornar-se cônscio dos elementos de nossos ensonhos ordinários. No ensonhar, nós podemos facilmente deslocar o ponto de encaixe. Graças a um constante e sutil deslocamento do ponto de encaixe cria-se uma nova pessoa. Dessa forma pomos fim a velha e nos tornamos uma nova pessoa. Don Juan disse que o "aqui" e o "ali" são intercambiáveis, nós fazemos isso o tempo todo com nosso corpo energético. O corpo energético é a soma total projetada para fora. O que temos de fazer para acabar com isso, para superarmos a nossa resistência? O terrível dano provocado pela sociedade pode ser corrigido mediante o sonhar. O próximo passo ou Portão do ensonhar é o de despertar dentro de um ensonho e entrar em outro ensonho. Uma vez que você adquiriu a energia da recapitulação, ensonhando você pode deitar-se no ensonho, na mesma posição em que originalmente você caiu no sono, e mover-se para outro ensonho. Depois que você entrou num ensonho dentro do ensonho você entra num estado que é inconcebível, e que golpea nossa mente . Este é o segredo das posições paralelas. O segredo dos segredos é intenta-lo. Nós só precisamos de energia. Isto não é nenhuma teoria, é real, e como praticante que sou afirmo que nós todos podemos fazê-lo. Eventualmente no ensonho tudo mudará. Um dia sua atenção será arrastada ou fixada por alguma coisa no ensonho e você não saberá por que razão. Você não será capaz de mover-se até que isso o liberte. Sua atenção é capturada por um ser inorgânico. Eles possuem mais sabedoria mas nós temos mais energia.Nós somos poderosas balas de energia, como um fogo brilhante. Eles permanecem para sempre e sua consciência pode nos pegar. Agora nós começaremos a ouvir sempre a voz do Emissário. Ele responderá nossas questões. Depois disso ouvimos esta voz como sendo de uma mulher. Ela é por natureza feminina. Não se entregue ao emissário do ensonho. Diga-lhe para ficar fora dos seus assuntos. Não permita-lhe alimentar-se de você em nome da liberdade. Existe uma onda que choca-se conosco e nos faz entrar na tristeza. Mas ela veio lá de fora? "Eu nunca pensei que estava indo viver para sempre, fazer isso é erguer um obstáculo. Tornei-me livre, fluido". Pratique o não-fazer do álbum do sublime. Isso criará a dissonância cognitiva. Crie um álbum para você lembrar seus momentos sublimes, de coisas e pensamentos que tenham assombrado você. A revolução real está no próximo mundo. É fácil estar envolvido em protestos políticos, mas este não é o ponto. Devemos fazer alguma coisa do ponto de vista do homem que está indo para morte. O que vocês têm feito por si mesmos ? O que você está fazendo para você mesmo, para o seu corpo? Olhe como você vive. Pare de fumar. O que vocês têm feito por si mesmos ? Nossa herança natural é viver e morrer como imbecis. Este é o tempo da revolução. 28/11/93-Palestra de Carlos Castaneda - LA. - The Phoenix Book Store.